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NOTÍCIAS DO PORTAL

A era do culto à tecnologia

A era do culto à tecnologia

Meu filho deu uma passada lá em casa, na quinta-feira, e mal se sentou soltou uma frase que assusta qualquer pai: "Estou muito triste".

A primeira coisa que me veio à cabeça foi algum problema com a netinha Alice, de dois anos e meio. Mas ela fazia a zorra habitual, demonstrando a energia absolutamente inesgotável que

às vezes me esgota só de olhar. Aí, meu filho explicou:

"Se o Steve Jobs deixou a presidência da Apple é porque ele está seriamente doente".

Eu sabia, faz tempo, que o rapaz é um fã incondicional da Apple, mas só então me dei conta de que não se tratava de uma paixão digamos utilitária (ele trabalha com aplicativos para

iPads e iPhones). Não, meu filho Cássio é membro de uma tribo, de uma seita, de um clube, sei lá como chamar, de adoradores da marca da maçã e, por extensão, de seu criador.

Eis algo que não entendo. É verdade que, influenciado por ele, comprei um IPad no ano passado e, logo em seguida, ganhei outro, de mais memória, pelos meus 30 anos de Folha. Gostei e

gosto do brinquedo, mas paixão mesmo continua sendo pelo Barcelona, já que o Palmeiras não me permite mais ser feliz.

No ano passado, ao entrar numa loja da Apple em Londres, topei com três brasileiros à porta, um casal e um avulso. O avulso avisou aos amigos: "Passem para me buscar daqui a duas

horas".

Deduzi que frequentar uma loja Apple é programa, como ir a um museu, a uma sessão de cinema, a uma exposição de arte. Ninguém leva duas horas para fazer apenas uma compra,

mesmo nas quase sempre lotadas lojas da maçã.

Deve ser sinal dos tempos. Clubes, até recentemente, formavam-se para endeusar artistas, jogadores de futebol, no máximo escritores, assim mesmo em escala bem menos gorda.

Há também fanáticos por futebol, como eu (a ESPN Brasil, aliás, tem um delicioso programa chamados "Loucos por Futebol"). Há os que torcem com igual paixão por automobilismo, seja

pelos pilotos, seja pelas marcas.

Até aí, entendo. São gente ou objetos que se movem, que têm vida ou que ganham competições.

Talvez computadores, celulares, iPods também tenham vida, mas, para mim, a lógica não é de paixão, mas de utilidade: se facilita a minha vida, eu uso. Mas não fico fissurado para trocar

meu iPad 1 pelo 2, 3, 4 ou sucessivos.

De repente, foi por essa relação utilitária que não me dei conta da dimensão que dizem que Steve Jobs tomou. Escreve, por exemplo, "El País" de sexta-feira: "Sua contribuição ao mundo

da tecnologia de consumo o converte em um dos grandes inovadores dos últimos 75 anos e em um transformador da indústria, ao ponto de ser considerado como o Thomas Edson do século

21".

Então tá. Mas nunca vi ninguém entrar em uma loja e lá ficar duas horas para cultuar a lâmpada elétrica.

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O Portal da Santa Ifigênia foi lançado em 01 de janeiro de 2002, tendo como objetivo principal a divulgação de empresas e produtos comercializados na região da rua Santa Ifigênia no centro da cidade de São Paulo, focando-se principalmente em produtos voltados para a área de eletro-eletrônicos.